Rafael era um homem qualquer. Nada indicava que se destacasse, e apenas aquele dia havia saído de sua mercearia devido à grande quantidade de pessoas amontoadas nas ruas de Israel.
Ele se acotovelou entre a multidão. Já que estava lá, queria ver de perto o fato que havia sido comentado por todas as pessoas de todas as tribos, povos e raças: A crucificação de Jesus Cristo, aquele que se auto-denominava "Rei dos Judeus".
Rafael apenas pensava que era um homem pretencioso que estava recebendo um castigo grande demais para seu crime. Mas ele não pretendia intervir. Não queria brigas para seu lado, e ajudar ou não aquele homem seria indiferente a ele.
Ao longe, ele via o homem caminhando. Franzino, magro e repleto de flagelos por todo seu corpo feitos com chicotes e lâminas, Cristo não parecia um Messias, e sim um criminoso qualquer. Foram essas as coisas que Rafael pensou enquanto aquele homem passava a sua frente.
Porém, ele tropeçou nos próprios pés. O sol escaldante e o grande peso da cruz que ele arrastava eram demais para ele, e Jesus caiu ao chão, com a face na areia e sem conseguir se reerguer.
Imediatamente Rafael correu para ampará-lo. Ele não sabia por quê havia feito isso, mas sentiu que devia fazer, não como judeu, nem como fiel, muito menos como um bom samaritano, e sim como um humano.
Os soldados zombavam daquela figura tão frágil caída, enquanto Rafael se esforçava para ajudá-lo a levantar. Eles então o ordenaram a carregar a cruz de Cristo até o calvário.
Carregar a cruz de Cristo...
Se aquele fosse mesmo o Messias, seria isso uma benção? Ou uma maldição?
Rafael não sabia, na verdade nem se importava. Ele só praguejava em sua mente o momento em que decidiu ajudar aquele homem às portas da morte, e agora sabia que teria que pagar por sua impulsividade.
Ele no entanto não contestou. Ergueu a cruz e levou-a, lentamente, acompanhando os passos de Jesus que, fraco e debilitado, não conseguia se mover muito rápido.
Mas o homem estava admirado. Motivo de chacota entre aqueles que considerou seu próprio povo, com o corpo cheio de horríveis feridas, recebendo cusparadas de todos os cantos, aquele homem ainda assim mantinha o andar orgulhoso, ainda que curvado.
Jesus Cristo não parecia se arrepender. Não parecia ansiar por uma nova chance.
Rafael não entendia. Por que aquele homem simplesmente não negava tudo aquilo que insistia em repetir? Será que não percebia que se livraria de toda a dor e sofrimento, e então poderia viver como um homem normal?
A multidão fazia tanto barulho que só ele pode ouvir as palavras saídas daquele homem tido como santo por alguns.
- Não negarei minha fé. Este é o destino que meu Pai traçou para mim, e por todos os homens que Deus colocou no mundo, minha obrigação... Não, meu prazer é ser crucificado por perdão de seus pecados.
Ele não compreendia. Realmente, não conseguia. Será que esta fé valia mesmo todo esse sacrifício?
Caminhava ainda lado-a-lado a Cristo, mas subitamente lágrimas vieram a seus olhos. O que ele havia sido até agora? O que havia feito? Quanta coisa havia negado para não correr riscos? Será que uma vida covarde buscando apenas por conveniências era o plano divino para sua vida?
E Rafael se arrependeu. Enquanto as lágrimas desciam por sua face, ele olhou para Cristo. Como parecia brilhar! Como parecia exultante, mesmo naquele estado em que se encontrava, coberto de sangue e feridas!
Mais do que nunca, ele teve certeza. Caminhava ao lado de um rei. Do rei, o único e verdadeiro digno deste posto. Teve vontade de gritar pelas ruas, de cantar sua descoberta para que todos pudessem ouvir! Talvez pudesse impedir aquela insanidade. Aquele homem não devia caminhar sem roupas para o calvário! Ele devia caminhar por um vasto tapete vermelho, trajando as vestimentas reais, com a coroa na cabeça e o cetro na mão direita!
Jesus sorriu e olhou para Rafael. Como aquele rosto era belo, apesar das cicatrizes!
- Não tente impedir. Foi para isso que vim ao mundo, e terminarei minha missão!
Quantas dúvidas se passavam na cabeça daquele homem? Será que acreditava mesmo no que estava dizendo? Será que não preferia ter aceitado uma vida fácil como era a de Rafael?
Ele não podia imaginar o que se passava na cabeça daquele santo. Mas chorava cada vez mais, percebendo seus erros, mas principalmente, percebendo quão errado era o ato de crucificar o Rei!
Chegando ao calvário, Rafael entregou a cruz aos guardas, e estes a montaram no chão. Cristo foi deitado lá, e o homem ajoelhou-se ao lado do divino.
- Senhor... Eu fui um tolo. Podeis me perdoar por meus pecados? Podeis lavar as chagas de minh'alma?
- Jovem, levantai, pois já fostes perdoado. Peregrinai pelo mundo, e pregai agora a vossa fé. Procurai-vos instruir com Pedro, João, e todos meus discípulos! E assim, siga pelo mundo proclamando a verdade, pois já tens lugar reservado a ti no Paraíso. Instruí a todos para que saibam que Jesus é o caminho, a verdade e a vida!
- Obrigado, meu Deus, muito obrigado...............
Rafael se afastou. As mãos e pés de Jesus foram pregados violentamente à cruz, sob os olhos aterrorizados de seu novo discípulo. A cruz então foi alçada e colocada de pé.
Ele não aguentou continuar vendo. Com lágrimas, olhou para Cristo e gritou:
- Deus abençoe este homem, pois és realmente santo! O Senhor dos Senhores aqui morre, mas vosso legado há de permanecer pela eternidade!
Rafael então correu.
Ele sabia.
Sabia que precisaria pregar para todos os cantos do mundo, e sabia que Cristo não havia falecido naquela cruz.
Apenas cumprido às ordens de seu Pai, para em breve retornar.
E Rafael ainda reside no coração da igreja, esperando orgulhoso de sua crença o retorno do Todo-Poderoso!















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