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Sobre Anjos, Humanos e Asas by ~Gabriel-Lemuriano:iconGabriel-Lemuriano:



Ele era apenas um anjo. O que podia compreender da vida? Como podia tentar sequer imaginar o quanto o sofrimento pode ser atordoante?

Sim, eu sempre tive o conhecimento de que anjos não sentem alegrias, nem tristezas, nem nada como os homens sentem. Aquelas criaturas iluminadas e inatingíveis pareciam alheias e, exatamente por isso, nunca os levei em consideração.

Mas será que é possível existir algo assim?

Não há quem não tenha sentimentos. Mas em meu egoísmo, em minha estupidez de pensar que o meu sofrimento era maior do que o de qualquer outra pessoa, submergi em meus sentimentos e não pude aceitar a ajuda que vinha daqueles que tinham a solução.

Ele era mesmo um anjo? Na verdade, não sei. Todo ser humano tem, inerente em si, a capacidade de ambicionar, de sonhar, de proteger. Todo ser humano tem a capacidade de raciocinar! E assim, qualquer um pode ser seu salvador.

Muitas pessoas levam vidas promíscuas, alheias a qualquer sentido ou dignidade. Mas ao ver aqueles próximos de si caindo, qualquer um pode se aproximar e erguer a mão. Esta é a beleza do sentimento que chamamos de "amizade". É a sustentação de toda a vida.

Assim, quando estava afundado e sem esperanças, aquele anjo me estendeu sua mão. Com um sorriso, me incentivou e me segurou.

Eu não queria.

Não queria vir ao mundo, voltar a sentir, a sofrer, a viver, a machucar e ser machucado. Só queria continuar escondido em meu refúgio, mas aquele belo anjo me trouxe de volta e me apresentou novas possibilidades.

Ele não veio sozinho! Muitos outros me cercaram por todos os lados, e sempre estiveram dispostos a me ajudar. Alguns se aproximaram apenas por interesse, outro por eles mesmos precisarem de ajuda, outros por se compadecerem. Mas nenhum tinha o mesmo esplendor daquele primeiro anjo que me salvou.

Ele não havia sido o primeiro a chegar. Muitos outros anjos já existiam em minha vida, mas nenhum tinha poder o suficiente para me conquistar. Todos eram por demais superficiais, e ao afundar, nenhum deles foi capaz de me trazer de volta. Mas aquele anjo recém-chegado me conquistou aos poucos. A princípio, era só "mais um". Não me importava o que acontecesse ou deixasse de acontecer com ele.

Mas ele se dispôs a mergulhar em mim. Me observou, me aconselhou, me guiou enquanto as maiores trevas me engolfavam. E agora, ele não era mais um anjo.

Era um amigo.

Ou uma amiga?

Na verdade, havia se tornado a pessoa mais importante da minha vida.

E com palavras doces e carinhosas, esse anjo me puxou para fora da minha reclusão e me obrigou a mais uma vez ver o mundo que me cerca. Sempre que tive medo, ele me ofereceu suas asas e me aninhou ali dentro. Sempre que tive dúvidas, ele tocou meu braço e me mostrou qual caminho seguir. Sempre que fraquejei, este mesmo anjo, que a princípio não parecia se importar e com quem eu a princípio não me importava, me segurou.

Eu me entreguei totalmente.

Mas sempre soube que anjos também erram. E fiz de tudo ao meu alcance para ajudar esta criatura tão solícita para comigo. O problema é que esse anjo era extremamente teimoso. Ele só gostava de ouvir o que queria ouvir, e ao ser contrariado se tornava agressivo. Suas belas asas brancas se tornavam repentinamente raquíticas asas negras, como as de um morcego. Seu olhar tão doce se enfurecia e desprendia um brilho maligno. Seu maravilhoso odor que acalmava se tornava um rançoso cheiro pútrido, afastando a todos.

Nunca deixei de tentar. Nunca deixei de me esforçar.

Mas este anjo jamais me escutou quando eu o contrariei. E assim, ele seguiu o caminho que queria para a vida dele.

Ah, como eu queria que fosse diferente!

Minha luta ainda hoje é para ajudar este meu anjo, esta criatura de luz que me protegeu com tanta vontade. Temo tanto por sua vida, milhares de vezes mais do que temo pela minha! Não suporto vê-lo cometer erros pois sei que os resultados podem ser catastróficos.

As vezes me excedo. Meu protecionismo para com ele me faz muitas vezes me desentender com esta criatura, e brigas intermitentes tem início.

Como me machucam... Muito mais do que quando eu estava escondido na minha concha, vivendo uma eterna solidão, estes sentimentos que permanecem depois de desentendimentos com meu anjo me despedaçam, arrancam cada gota de meu sangue.

Eu desisto de viver.

Sem o anjo, que serei eu?

Meu medo de perdê-lo é tão grande......... Tão grande que sequer posso respirar enquanto penso nas conseqüências que seus atos podem ter.

Assim, me descubro humano. E descubro que meu anjo também é um humano.

E descubro que todos temos asas.

Asas que podem curar, tanto quanto podem machucar.

Asas que podem proteger, tanto quanto podem atacar.



E assim descobrimos a única diferença entre homens e anjos. Não são os "sentimentos", nem a "forma física", e nem mesmo os "pensamentos". A diferença fundamental entre estas criaturas é que......

Os anjos sabem como usar suas asas. Eles sabem controlá-las!
©2006-2009 ~Gabriel-Lemuriano
:icongabriel-lemuriano:

Author's Comments

Uma breve história de um anjo, um homem, e como se usar um par de asas.

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November 6, 2006
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